Condução compartilhada: uma proposta de evolução natural para Dança de salão

Fran&Maicon-37-1_postConduçãoDança é movimento, movimento é vida, logo dançar a dois num salão de baile é estabelecer uma convivência social através do diálogo corporal.

Nesta relação de convivência social estabelecida através da dança de salão costuma-se manifestar comportamentos advindos de herança cultural que definem a conduta dos praticantes. Como por exemplo, afirma-se com quase unanimidade que quem conduz na dança de salão é o homem. Esta afirmação ainda nos dias de hoje é um paradigma e um dogma que poucos refletem a respeito.

Observo muitos professores de dança de salão simplesmente replicando o modelo tradicional e alunos absorvendo sem pensar, questionar e propor algo diferente que permita avanços.

Ao observar a evolução em alguns comportamentos sociais, onde as mulheres conquistaram direitos e se empoderaram, resolvi faz alguns anos atrás realizar uma pesquisa na escola onde sou proprietário e ministro aulas de dança de salão para saber se os alunos e alunas concordavam com a afirmação citada anteriormente. A resposta foi sim, eles e elas concordaram que o homem é quem conduz e a mulher é quem dever ser conduzida.

Foi aí que pude compreender que este modelo está mais enraizado em nossa sociedade do que eu supunha.

Observo que inexiste diálogo neste modelo, onde só o homem (gênero masculino) conduz – entendendo condução como ação ativa de conduzir, levar, direcionar- e a mulher (gênero feminino) passivamente espera a condução.

Visto que diálogo é uma conversa respeitosa onde as pessoas compartilham expressando o que pensam, sentem e consequentemente querem.

Sei que tem mulheres que querem somente ser levadas, mas também sei que existe muitas delas que querem exercer seu direito e fazer uso da liberdade que lhes cabe para movimentarem-se conforme suas vontades, inclusive propondo movimentos, ou seja, passos e direções aos homens.

Então porque cerceá-las, limitá-las e/ou impedi-las? Porque não podemos instituir verdadeiramente um diálogo corporal em que a mulher ao participar com o homem da condução da dança a dois compartilha a responsabilidade e colabora muito no enriquecimento da dança dos dois?

Fran&Maicon-21-1 cortadaMas, muitos já me falaram: “assim dá certo, está bom, isso sempre foi assim, dá muito trabalho mudar”. Respeito quem já está feliz com o modelo tradicional. Mas entendo que isso não deva servir de desculpa e nem impedir a evolução da dança a dois.

Pode-se superar o monólogo imposto na dança de salão pela cultura muitas vezes machista com esforço, conhecimento, sensibilidade, flexibilidade, cuidado, gentileza, paciência e respeito a individualidade de cada um, independente do gênero.

Farei uma analogia para ilustrar esta questão de condução na dança de salão. Imagine que o casal ao entrar numa pista de dança seja como se eles estivessem entrando num automóvel, onde neste automóvel o banco do motorista fosse de uso obrigatório do homem e o do carona de uso obrigatório da mulher.

O homem tem a responsabilidade e obrigatoriedade de dirigir, planejar o destino, escolher o caminho, determinar a velocidade, além de cuidar para não bater em ninguém. Já a mulher observa atenta a direção do homem, a paisagem, e o segue podendo até quando segura, fechar os olhos para sentir o balanço do automóvel e relaxar.

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O homem devido a sua obrigação jamais poderá fechar os seus olhos, primeiro por que não se concebe esta possibilidade, segundo por que nem ele nem ela estudam e praticam para compartilharem a condução da dança, ou seja, ela não sabe propor no tempo e com o jeito apropriado os movimentos e ele não sabe processar, interpretar e consequentemente responder adequadamente as propostas dela.

Com isso afirmo que tanto a direção de um automóvel, quanto a direção de um casal na pista de dança pode ser realizada tanto pela mulher quanto pelo homem, pois fica claro que não é o gênero que determina quem dirige.

Entendo que em qualquer aspecto da vida, inclusive na dança a dois, pode dirigir, comandar, liderar, quem tem conhecimento, vontade e responsabilidade.

Definitivamente depois de mais de 13 anos dançando e ministrando aulas de dança de salão estou convicto que não é o gênero que determina quem conduz na dança de salão, mas sim a cultura imposta pela tradição, o conhecimento que capacita, a vontade criada por estímulos ou necessidades de quem precisa e quer conduzir, e a responsabilidade assumida por quem sabe o que faz.